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China declara guerra contra o lixo

19/07/2019 - Com duas décadas de atraso em relação a outras cidades, Xangai adota coleta seletiva em larga escala. Programa piloto vai se estender para todo o país.

A maior cidade da China em número de habitantes e uma das maiores do mundo inicia era de coleta seletiva obrigatória. Desde o início de julho, os cerca de 24 milhões de moradores de Xangai não podem simplesmente usar a lixeira mais próxima.

Separar o lixo reciclável do não reciclável e respeitar os horários de descarte é a nova ordem. Até o final do ano que vem, essa deve passar a ser a rotina em 46 cidades do país.

Com isso, o governo chinês espera atingir uma meta de reciclagem de 35% dos resíduos produzidos e quer que todos os grandes municípios adotem a coleta seletiva compulsória até 2025.

Desde o início dos anos 2000, a China testa em oito cidades, dentre elas Pequim e Xangai, sistemas de classificação de resíduos, mas com pouca adesão, alcance e eficácia. A reciclagem ainda acontece principalmente de maneira informal, através da ação de catadores autônomos, ou se apoia em iniciativas pontuais.

Apesar de existirem e de estarem cada vez mais presentes nas ruas, as lixeiras para reciclagem têm indicações solenemente ignoradas por moradores. Muita gente não sabe como reciclar ou porquê deveria.

 

Homem seleciona caixas de papelão de um depósito de lixo em um complexo residencial de Xangai - Hector Retamal / FP

Metrópoles como Paris e Tóquio começaram a introduzir sistemas municipais de coleta seletiva em larga escala há quase duas décadas. Mas é o sucesso da experiência japonesa —onde uma série de leis foram adotadas para reduzir a geração de lixo e regular a triagem e a coleta— que mais inspira a decisão do governo chinês, como transparece nas publicações da imprensa estatal.
 
A China aposta na força da lei para garantir resultados rápidos e adesão popular em uma recém-lançada e ambiciosa campanha nacional para promover a reciclagem, ainda que tardia. Xangai é a experiência piloto. No ano passado, o dirigente Xi Jinping disse em uma visita à cidade que “a separação de resíduos é a nova moda”.
 
Quem não abraçar a mudança de hábito vai sentir no bolso. A decisão vem de cima e já entrou em vigor. Não cumprir a norma em casa ou nos espaços públicos, constantemente monitorados por câmeras, gera multa de 200 yuans (R$ 110). Comunidades que não se adequarem às novas regras terão a coleta de lixo suspensa.
 
O anúncio dá o tom para que iniciativas públicas e privadas do país comecem a se adequar. Por exemplo, hotéis em Xangai estão informando hóspedes que pararam de fornecer itens de plástico descartável, como escovas, toucas e pentes.

Empregado seleciona computadores descartados em um complexo de reciclagem de lixo eletrônico em Wuhan - China Out/Reuters

Há sete aos, Pequim tem um sistema de máquinas de coleta de garrafas plásticas no metrô que dão crédito de transporte para quem recicla. Já a coleta seletiva na porta de casa não existe em uma cidade do porte de Hong Kong —raros são os prédios onde o lixo é de fato triado. Não faltam pontos de coleta seletiva nas ruas, mas sim programas de educação ambiental em larga escala que possam mobilizar a população para a importância da reciclagem e da redução do lixo e assim dar folego às tímidas iniciativas existentes.

ONGs pressionam para que o governo de Hong Kong passe a taxar empresas e indivíduos pela quantidade de resíduos gerados. O sistema "quem polui paga" conseguiu reduzir o volume de lixo per capita em Taipei e Seul e tem o apoio do ministro do Meio Ambiente de Hong Kong, Wong Kam-sing.

Apesar da recente sensibilização pela melhora da qualidade do ar, a consciência ecológica engatinha na China. A gestão de resíduos nas cidades do país é um problema gigantesco e urgente. A rápida urbanização e a expansão do consumo das famílias gerou um cenário de aterros saturados.

A separação na fonte e não depois da coleta é tida como a prática mais eficiente, porém para os chineses será preciso mudar a mentalidade de que a responsabilidade do lixo é do agente de limpeza e não de cada cidadão.

O lixo doméstico é apenas uma fração do volume gerado por grandes indústrias, mas a sensibilização de consumidores para o problema tem se mostrado um importante mecanismo para pressionar governos e empresas a adotarem mudanças nos processos de produção e descarte. No caso chinês, é a ação direta do Estado que pretende criar práticas sustentáveis no curto prazo.

PLÁSTICO, CRISE GLOBAL

Um terço do lixo gerado no mundo vai parar em lixões a céu aberto. O plástico representa 12% de todo o resíduo descartado no mundo, de acordo com o relatório “What a Waste”, do Banco Mundial, publicado no ano passado.
 
A China caminha para se tornar o maior produtor de lixo plástico do planeta, ultrapassando os Estados Unidos. O Brasil é o 4º na lista e gera todos os anos 11 milhões de toneladas do material.Para alcançar uma redução da poluição plástica no mundo é preciso que a China participe desse esforço. Três dos quatro rios que são os maiores responsáveis pela entrada de lixo plástico nos oceanos estão no país: rio Yangtze, rio Amarelo e rio Xi.

Até 2018, a China era o destino de toneladas de plástico estrangeiro para reciclagem. O país proibiu a importação do material e de mais 32 tipos de resíduos sólidos, como sucatas de carros e navios.

Em 2016, o gigante asiático importou quase 8 milhões de toneladas de plástico, o equivalente a aproximadamente 56% das importações mundiais. Boa parte da separação do material recebido era feita à mão. Os grandes polos de reciclagem de plástico na China, como a província de Cantão, vizinha a Hong Kong, sofrem hoje com o impacto na saúde e no meio ambiente gerado pelo processo.

A decisão chinesa chegou a ser celebrada como uma oportunidade para forçar EUA, Canadá e grandes países industrializado na Europa a buscarem novas soluções para o problema do lixo, como a redução do uso de descartáveis e o desenvolvimento de políticas de reciclagem locais. No entanto, montanhas de dejetos estão sendo redirecionadas para nações em desenvolvimento.
 

Fonte: Folha

Luiza Duarte (Correspondente na Ásia, doutora em ciência política pela Universidade Sorbonne-Nouvelle e mestre em estudos de mídia pela Universidade Panthéon-Assas.)